Nunca falei sobre o nascimento da Alice. Nem neste blog e nem no antigo. Nunca falei porque na verdade é uma situação que apesar de feliz, ficou muito mal digerida por mim. Eu não pari, não no sentido fisiológico da coisa. Alice veio ao mundo através de uma cirurgia, de uma cesárea, que aliás foi desnecessária. Só hoje, mais de 3 meses depois, eu tive coragem e vontade de falar sobre isso.
Abro aqui um parenteses. Antes de receber a notícia do positivo, eu nunca havia sequer cogitado a possibilidade de um dia me tornar mãe. Minha vida era no melhor estilo de sexo, drogas e rock'n roll que poderia existir e eu queria que ela continuasse assim. Portanto, sequer havia passado pela minha cabeça que um dia eu teria que optar por cesárea, parto normal, parto natural. Fecha parenteses.
Quando descobri que ia ser mãe, minha primeira preocupação foi qual seria o meu médico. Escolhi um médico de confiança. Aquele que fez o parto do nascimento da minha irmã, aquele que ainda acompanhava a minha mãe depois de tantos anos. Não era um médico muito simpático, era bem seco, no melhor estilo Dr. House de ser. Mas era tão bem recomendado, médico muito requisitado, tradicionalíssimo na cidade que eu não tinha dúvidas: seria aquele o médico que estaria ao meu lado durante esse momento tão importante. Burra.
Só que, durante a gravidez, eu mergulhei de vez nesse mundo da maternidade. Passava horas procurando informações, lendo, aprendendo. Questões como parto normal ou cesárea foram aparecendo naturalmente e naturalmente também eu fui fazendo as minhas escolhas. Nada me parecia mais normal do que um parto normal. Comecei a trabalhar os medos que ainda existiam em mim e quando vi, estava determinada a ter um parto normal, com o mínimo de intervenções possíveis.
O pré natal foi tranquilo. Sempre que questionado sobre o parto, se mostrava favorável a um parto normal. Afinal, nenhum risco, nenhum susto, nenhuma intercorrência. A não ser com 35 semanas de gestação, quando ele simplesmente me avisa que no mês de Julho (é, o mesmo mês em que minha filha estava prevista para nascer) ele iria tirar férias e viajar para os Estados Unidos, e que era melhor que eu procurasse um outro obstetra o quanto antes. Simples assim.
Saí do consultório abalada. Lembro que saí chorando e morrendo de medo. Me senti um nada, ele não se preocupou, não teve um mínimo de respeito, nem comigo e nem com a minha filha. Mas mesmo abalada, ainda tinha que resolver, com minha filha prestes a nascer, quem é que estaria ao meu lado. Resolvi marcar com um obstetra com quem eu tinha passado uma vez enquanto o meu viajava.
Médico extremamente educado e simpático. Muito diferente do anterior. Começamos a conversar, expliquei toda minha vontade de fazer um parto normal e que tinha me preparado a gravidez inteira para isso. Ele concordou comigo, disse que eu tinha 20 anos, saudável e que tinha tudo para ter um parto normal, que cesárea nem pensar. Ele me ganhou, me pareceu extremamente confiável. Seria esse então, o médico que estaria ao meu lado durante o nascimento da minha filha. Burra duas vezes.
Um dia antes de completar a 39ª semana, dia 12/07/2011 passei por mais uma consulta de rotina. O médico me pediu um ultrassom pois disse que há 3 semanas a minha autura uterina permanecia a mesma e que poderia haver um retardo de crescimento. Lembro que fui tranquila, não sei, mas tinha a certeza de que não havia nada errado. E não havia mesmo. Alice estava com tamanho normal, tinha crescido e pesava aproximadamente 3.650 kg. O médico do ultrassom me disse que estava tudo bem e que eu poderia levar os exames para o meu obstetra.
- Eu sei que você quer ter um Parto Normal, mas este ultrassom está me deixando preocupado.
- Preocupado? Mas acabei de ver que está tudo bem, que ela cresceu normalmente.
- É, por enquanto ainda está tudo bem, mas por enquanto. Sua placenta está praticamente calcificada, além dela poder parar de passar nutrientes a qualquer momento a gente ainda corre o risco dela meconiar.
- Ãhn?
- É, ela pode liberar e aspirar o mecônio a qualquer momento, entrando em sofrimento. Além disso ela está com 3.650 kg, e você é muito pequenininha, mesmo com anestesia vai ser um parto muito sofrido, você não vai aguentar.
Eu lembro de ficar quieta. Não conseguia pensar em mais nada. Ficamos em silêncio. Quando ele voltou a falar:
- Eu sei que você quer muito um parto normal, e eu também acho muito melhor. Porém há riscos e você tem que querer o melhor para a sua filha, certo?
- Sim, mas é necessário mesmo uma cesárea?
- Olha, eu até posso esperar se você quiser. Mas eu não esperaria. Se esperarmos você estará assumindo esse risco.
Como assim, assumir o risco? Eu queria um parto normal, mas sem colocar em risco a saúde da minha filha.
- Então tá, amanhã a gente te interna as 8:30 am. Até amanhã!