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Sobre o Nascimento - Final

E foi assim que eu conheci a minha filha. O restante da cirurgia ocorreu normalmente, sem maiores emoções. Tenho que admitir que tive sorte, mesmo fazendo uma cesárea. Alice mamou ainda na primeira hora de vida, nasceu perfeitamente saudável, ficou o tempo inteiro comigo no quarto e todos os cuidados com ela eram meus. Não tive nenhuma reação a anestesia e a recuperação da cesárea, apesar de dolorida, foi tranquila.

O que não foi tranquilo para mim, foi aceitar que eu fiz essa cesárea, sem querer, sem precisar. Pode parecer bobagem para algumas pessoas, mas me incomoda demais falar sobre isso, me incomoda demais não ter seguido meus instintos, me incomoda muito viver em um país aonde as suas vontades não são respeitadas. Não tenho a intenção de achar nenhum culpado para isso, visto que eu tomei a decisão de aceitar a cesárea e pronto, mas diante de um médico cesarista, diante de uma família que achava melhor uma cesárea, acho que fui até onde pude. E onde consegui.

Claro que isso não influencia em nada no que sinto pela minha filha e no que vamos passar juntas, mas eu sinto que eu poderia ter dado a ela uma chance mais digna de nascimento, sinto que eu poderia ter dado a mim, uma chance de renascimento, de descoberta. E sinceramente, ainda falta em mim essa experiência, eu sinto essa falta. E não sei se um dia eu vou conseguir supri-la. E isso me dói.

***

Não tive a intenção nenhuma de vir aqui falar sobre os benefícios ou não de uma cesárea. Estou apenas relatando os fatos como ocorreram diante do meu ponto de vista e desabafar sobre algo que até então eu não consegui digerir. A minha gestação foi saudável e não havia nenhum problema que indicasse uma cesárea. Somado a isso eu queria muito ter entrado em trabalho de parto, queria muito ter pelo menos tentado, ter a minha filha de forma natural.

Respeito sim quem não se importa de ter tido uma cesárea ou mesmo quem desejou passar por essa cirurgia. Mas não foi o meu caso. Não era o que eu queria, não era o que eu buscava e é isso que me incomoda. Não ter sido respeitada, nem no momento mais importante da minha vida.

Sobre o Nascimento - Parte III

Depois de toda aquela burocracia de assinar os papéis, pedir autorização do plano de saúde e ser instalada no quarto, me entregaram aquela roupinha ridícula de cirurgia. Aquela mesma, com as costas aberta. Terminando de me vestir, a enfermeira apareceu com uma cadeira de rodas para me buscar. Fui levada para sala de pré parto.

Uma enfermeira, bem grossa por sinal, veio até mim e começou com um interrogatório. Eram uma série de perguntas das quais não me lembro. Estava com medo demais para prestar atenção nisso. E preocupada porque minha mãe ainda não estava ali, do meu lado. Colocada a sonda sensação horrível me levaram direto para o centro cirúrgico.

Enquanto meu médico não chegava, tive chance de conhecer o anestesista. E ainda bem. Acho que percebendo a minha tensão, ele começou a conversar comigo, a me acalmar. Lembro que começou falando sobre as minhas tatuagens e perguntando porque eu estava nervosa, do que tinha medo. Começou a me explicar sobre a anestesia, o que eu sentiria. Mas de uma forma muito calma, o que fez com que eu fosse me tranquilizando. Agradeço muito por ter encontrado com ele, ali, naquela situação. Nessas horas a gente vê o quanto alguém que te ouve, que te dê atenção nos ajuda. Durante a cirurgia toda, ele ficou do meu lado, mexia no meu cabelo por baixo da touca. Tive sorte.

Assim que tomei a anestesia, minha mãe entrou e sentou ao meu lado. A cirurgia não teve nada demais. Tudo ocorreu dentro do esperado, não senti absolutamente nada a não ser um desconforto e muita pressão. Meus braços abertos, como em um crucifixo, me impediam de ter qualquer movimentação. E a visão que eu tinha era a de um pano azul. Durante toda a cirurgia eu fiquei acordada, não senti sono, fiquei conversando com a minha mãe, esperando pelo nascimento da minha filha.

Não vi o nascimento da minha filha. E nem o senti. Só ouvi. Enquanto estava vendo aquele pano azul, ouvi minha mãe fazendo "own" e imaginei que ali nascia a minha Alice. Ela não chorou, apenas resmungou. O médico me disse que ela tinha um bocão e que era muito saudável. A enfermeira trouxe ela ao meu lado e eu não pude tocá-la, não pude beijá-la. Só consegui dar uma olhadinha rápida e me apresentar:

- Oi bebê, eu sou a sua mãe.

Sobre o Nascimento - Parte II

E foi dessa forma, que no dia 12/07/2011 eu saí da maternidade. Com o nascimento da minha filha agendado para o dia seguinte.
E foi assim, que no dia 12/07/2011 eu saí do hospital. Com o nascimento da minha filha agendado para o dia seguinte. E eu que estava sozinha, dirigindo para minha casa na verdade estava sem direção.

Quando cheguei em casa, comecei a me tranquilizar. Comecei a relembrar tudo o que o médico dizia e quais os motivos alegados para me fazer uma cesárea "de emergência". Conforme ia lembrando de cada palavra, comecei a discordar. Conversava com outras pessoas, procurava informações, recorri a um amigo obstetra, que estava fora do país... E eu estava certa: nenhum dos motivos alegados parecia ser uma real indicação de cesárea.

Mas, e se? E se o médico realmente tivesse razão, e se tudo aquilo realmente indicasse uma cesárea? E se eu estivesse errada? E se eu insistisse e acontecesse alguma coisa com a minha filha? Ao mesmo tempo que essas dúvidas martelavam na minha cabeça, eu sabia, lá no fundo, que eu estava certa. Eu busquei durante 09 meses me informar e me preparar para um parto normal. Eu queria bater de frente, jogar tudo pro alto e esperar... Mas diante de um médico bem filho da puta que deixa bem claro que não se responsabiliza por qualquer eventual problema, você arriscaria? Pois eu não arrisquei.

Fui deitar e dormir acreditando que quem sabe eu pudesse entrar em trabalho de parto antes da manhã seguinte. Mas como era de se esperar, nada aconteceu. Acordei, bem antes do despertador tocar e comecei a entrar em desespero. Começou a cair a ficha realmente e o choro foi incontrolável. Não queria aquela cesárea, não tinha sonhado com isso, não tinha planejado isso, eu sequer tinha entrado em trabalho de parto. Queria desistir, queria esperar, queria abandonar os médicos do convênio, queria ter a minha filha pelo SUS.

Mas diante do diagnóstico médico, diante de uma família inteira que fez cesárea, diante da ansiedade do nascimento da minha filha, ninguém me apoiou. Nem meu namorado, nem meu pai e nem a minha mãe. Retiro o que disse, na verdade, apoiaram sim, da forma que puderam. Apoiaram dizendo que o que importava era o bebê e não a forma como ele viria ao mundo, que parto normal ou cesárea não modificariam a nossa ligação. O que realmente é verdade. Mas eu poderia dar um nascimento mais digno para minha filha. E tudo o que eu precisava era que alguém dissesse para eu esperar... Mas não aconteceu.

Cheguei no hospital um pouco menos nervosa. Mas não tranquila. Os papéis da internação ainda não estavam prontos, o meu médico estava em outra cesárea e eu tinha que esperar. E eu esperei. Ali na sala de espera da maternidade, com tantas outras grávidas esperando atendimento. Acredito que o medo e o nervosismo estavam estampados na minha cara, porque todas as pessoas que estavam ali me questionavam se eu estava me internando para o nascimento da minha filha. Diante da resposta afirmativa, algumas grávidas invejavam essa hora tão esperada... E eu ali, querendo esperar mais.

Ali, naquele hospital, enquanto eu esperava, tentava de alguma forma explicar para minha filha que o grande dia havia chegado. Queria de alguma forma, minimizar o susto que ela iria tomar. Imaginava que ela estava quietinha, sem nem imaginar o que viria acontecer. Sentia que era minha obrigação tentar alertá-la. Mesmo que ela não entendesse. Então em cada minuto de espera eu pensava, pedia para ela entender que eu não tinha tido coragem de discutir com o médico, mas que queria o melhor pra ela. Não era justo com ela ser retirada de surpresa. Eu sabia, lá no fundo, que ainda não era a hora.

Depois de uma hora de espera, me chamaram para descer e assinar a documentação. Foi o que fiz. E ali, na recepção da maternidade eu tomei a minha posição. A de aceitar a cesáre. Tenho real consciência de que foi uma opção minha. Poderia sim, ter desistido, poderia sim ter ido embora. Mas não o fiz. Não me arrependo, diante de tais circunstâncias aceitei que fiz o melhor que poderia ter feito, porém não deixo de pensar que tudo poderia ter sido diferente, que poderia pelo menos ter esperado entrar em trabalho de parto. Poderia.

Sobre o Nascimento - Parte I

Nunca falei sobre o nascimento da Alice. Nem neste blog e nem no antigo. Nunca falei porque na verdade é uma situação que apesar de feliz, ficou muito mal digerida por mim. Eu não pari, não no sentido fisiológico da coisa. Alice veio ao mundo através de uma cirurgia, de uma cesárea, que aliás foi desnecessária. Só hoje, mais de 3 meses depois, eu tive coragem e vontade de falar sobre isso.

Abro aqui um parenteses. Antes de receber a notícia do positivo, eu nunca havia sequer cogitado a possibilidade de um dia me tornar mãe. Minha vida era no melhor estilo de sexo, drogas e rock'n roll que poderia existir e eu queria que ela continuasse assim. Portanto, sequer havia passado pela minha cabeça que um dia eu teria que optar por cesárea, parto normal, parto natural. Fecha parenteses.

Quando descobri que ia ser mãe, minha primeira preocupação foi qual seria o meu médico. Escolhi um médico de confiança. Aquele que fez o parto do nascimento da minha irmã, aquele que ainda acompanhava a minha mãe depois de tantos anos. Não era um médico muito simpático, era bem seco, no melhor estilo Dr. House de ser. Mas era tão bem recomendado, médico muito requisitado, tradicionalíssimo na cidade que eu não tinha dúvidas: seria aquele o médico que estaria ao meu lado durante esse momento tão importante. Burra.

Só que, durante a gravidez, eu mergulhei de vez nesse mundo da maternidade. Passava horas procurando informações, lendo, aprendendo. Questões como parto normal ou cesárea foram aparecendo naturalmente e naturalmente também eu fui fazendo as minhas escolhas. Nada me parecia mais normal do que um parto normal. Comecei a trabalhar os medos que ainda existiam em mim e quando vi, estava determinada a ter um parto normal, com o mínimo de intervenções possíveis.

O pré natal foi tranquilo. Sempre que questionado sobre o parto, se mostrava favorável a um parto normal. Afinal, nenhum risco, nenhum susto, nenhuma intercorrência. A não ser com 35 semanas de gestação, quando ele simplesmente me avisa que no mês de Julho (é, o mesmo mês em que minha filha estava prevista para nascer) ele iria tirar férias e viajar para os Estados Unidos, e que era melhor que eu procurasse um outro obstetra o quanto antes. Simples assim.

Saí do consultório abalada. Lembro que saí chorando e morrendo de medo. Me senti um nada, ele não se preocupou, não teve um mínimo de respeito, nem comigo e nem com a minha filha. Mas mesmo abalada, ainda tinha que resolver, com minha filha prestes a nascer, quem é que estaria ao meu lado. Resolvi marcar com um obstetra com quem eu tinha passado uma vez enquanto o meu viajava.

Médico extremamente educado e simpático. Muito diferente do anterior. Começamos a conversar, expliquei toda minha vontade de fazer um parto normal e que tinha me preparado a gravidez inteira para isso. Ele concordou comigo, disse que eu tinha 20 anos, saudável e que tinha tudo para ter um parto normal, que cesárea nem pensar. Ele me ganhou, me pareceu extremamente confiável. Seria esse então, o médico que estaria ao meu lado durante o nascimento da minha filha. Burra duas vezes.

Um dia antes de completar a 39ª semana, dia 12/07/2011 passei por mais uma consulta de rotina. O médico me pediu um ultrassom pois disse que há 3 semanas a minha autura uterina permanecia a mesma e que poderia haver um retardo de crescimento. Lembro que fui tranquila, não sei, mas tinha a certeza de que não havia nada errado. E não havia mesmo. Alice estava com tamanho normal, tinha crescido e pesava aproximadamente 3.650 kg. O médico do ultrassom me disse que estava tudo bem e que eu poderia levar os exames para o meu obstetra. 

- Eu sei que você quer ter um Parto Normal, mas este ultrassom está me deixando preocupado.
- Preocupado? Mas acabei de ver que está tudo bem, que ela cresceu normalmente.
- É, por enquanto ainda está tudo bem, mas por enquanto. Sua placenta está praticamente calcificada, além dela poder parar de passar nutrientes a qualquer momento a gente ainda corre o risco dela meconiar. 
- Ãhn?
- É, ela pode liberar e aspirar o mecônio a qualquer momento, entrando em sofrimento. Além disso ela está com 3.650 kg, e você é muito pequenininha, mesmo com anestesia vai ser um parto muito sofrido, você não vai aguentar.

Eu lembro de ficar quieta. Não conseguia pensar em mais nada. Ficamos em silêncio. Quando ele voltou a falar:

- Eu sei que você quer muito um parto normal, e eu também acho muito melhor. Porém há riscos e você tem que querer o melhor para a sua filha, certo?
- Sim, mas é necessário mesmo uma cesárea?
- Olha, eu até posso esperar se você quiser. Mas eu não esperaria. Se esperarmos você estará assumindo esse risco. 

Como assim, assumir o risco? Eu queria um parto normal, mas sem colocar em risco a saúde da minha filha. 

- Então tá, amanhã a gente te interna as 8:30 am. Até amanhã!

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